José Rubens Chachá estreia “O Nome do Tango”, solo musicado que entrelaça política, etarismo e as contradições do mundo da arte

Embalada por clássicos da música argentina, a peça acompanha a busca obsessiva de um velho escritor por uma canção capaz de reverter sua decadência, em texto escrito para marcar os 50 anos de carreira de Chachá.

 José Rubens Chachá em “O Nome do Tango”

O ator e dramaturgo José Rubens Chachá estreia, no dia 19 de setembro, em São Paulo, o solo O Nome do Tango. Dirigido por sua filha, Maíra Chasseraux, o espetáculo foi escrito para marcar os 50 anos de carreira do artista. A trama acompanha um veterano escritor diagnosticado com demência que busca uma antiga canção argentina para tentar conter a perda de memória, enquanto confronta lembranças do passado e sua cumplicidade com a ditadura militar na Argentina. Com sessões aos sábados e domingos, às 19h, a peça cumpre temporada no Teatro Estúdio, localizado no bairro da Santa Cecília.

Memória e finitude

Ambientada no ano de 1998, a narrativa coloca em foco o envelhecimento e a fragilidade da mente humana ao acompanhar um intelectual maduro confrontado pelo avanço da demência. Em meio a lapsos de lucidez, episódios absurdos do cotidiano e diálogos com o passado, o protagonista apega-se à busca obsessiva por uma canção específica — o lendário “nome do tango” —, encarada por ele como o último alento para manter acesa a própria identidade.

Entre o humor involuntário produzido pelos lapsos de memória e a melancolia da finitude, a obra retrata a eterna necessidade humana de agarrar-se a sonhos e ilusões como combustível existencial frente ao tempo que se esgota.

O autor, a obra e as sombras do autoritarismo

A dimensão política do espetáculo emerge quando a história resgata o contexto das ditaduras militares na América Latina, com ênfase no sangrento regime argentino de Jorge Rafael Videla. À medida que o protagonista busca reconstruir seu passado, a peça revela as fissuras na trajetória do celebrado autor, expondo sua cumplicidade silenciosa e covarde com os porões da repressão em troca de proteção e prestígio intelectual.

“O que mais me emociona e me faz criar são as contradições do ser humano. Me interessa discutir como obras-primas muitas vezes são produzidas por pessoas desprezíveis ou covardes. Eu quis colocar em cena um personagem sedutor, que faz rir e emociona a plateia, mas que revela ter colaborado com um regime assassino. Essa dualidade é a verdadeira carne do teatro.”
— José Rubens Chachá

O texto tensiona o histórico debate sobre a separação entre criador e obra, questionando a conivência da sociedade e do meio cultural com intelectuais e artistas que, a despeito do talento extraordinário, compactuaram com a violência de Estado.

“Voltar a discutir a ditadura, a falta de democracia e a violência de Estado é algo urgente. A nova geração precisa ouvir essa história e os mais velhos precisam repensar suas posições. E a minha proposta é fazer isso de forma leve e envolvente, onde o público se diverte para, de repente, receber uma rasteira e perceber que o buraco é mais embaixo.”
— José Rubens Chachá

 

 

 

Dramaturgia alinhavada pelo tango em vinil

Sem se configurar como um musical convencional, o espetáculo utiliza a música argentina como eixo condutor da própria dramaturgia. Gravados e reproduzidos a partir de discos de vinil — elemento físico crucial no desejo do protagonista —, tangos clássicos de mestres como Ástor Piazzolla e Osvaldo Pugliese atuam como vetores de estados emocionais, pontuando episódios de culpa, nostalgia, desejo e revelação.

“A música sempre pontuou minha vida artística. O tango traz uma dramaticidade única, uma densidade de emoções que serve perfeitamente ao texto. Não é uma trilha de fundo, é o próprio motor que guia o riso, a dor e os desvarios do personagem em cena.”
— José Rubens Chachá

Cinco décadas de dedicação aos palcos

A montagem celebra os 50 anos de carreira de José Rubens Chachá, artista de vasta trajetória que transita pela música, teatro, cinema e televisão. Iniciado no teatro amador em Santos e com sólida formação musical, Chachá participou de clássicos do teatro brasileiro, como a montagem paulista original de A Ópera do Malandro (dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa), A Gaiola das Loucas, um dos maiores sucessos de bilheteria do nosso teatro, com Jorge Dória e Carvalhinho, além de atuar por 15 anos na icônico Teatro do Ornitorrinco, sob direção de Cacá Rosset, realizando excursões por festivais mundiais.

Na escrita audiovisual, Chachá integrou equipes de criação de marcos da TV brasileira como TV Colosso e Castelo Rá-Tim-Bum, além de ter protagonizado o curta-metragem Uma História de Futebol, indicado ao Oscar.

Direção e cumplicidade em cena

A encenação de O Nome do Tango é assinada por Maíra Chasseraux, filha de Chachá, em uma colaboração que une precisão técnica e profunda intimidade artística. A diretora conduz a interpretação do ator por nuances afiadas, assegurando o equilíbrio entre a leveza cômica do início da jornada e a revelação dramática final.

Essa parceria ganha novos contornos em Dr. Carrasco e sua criada Matti, que estreia em 10 de outubro, também no Teatro Estúdio. Desta vez, Chachá assina a dramaturgia e a direção, enquanto Maíra integra o elenco ao lado de Pedro Osório.

Sobre a Cia. Fotiá

Fundada pelos artistas Maíra Chasseraux e Pedro Osório, a Cia. Fotiá é uma associação de artistas dedicada à criação, à produção e à circulação de obras para teatro e audiovisual. Estruturada como um hub de colaboração, a companhia reúne profissionais de diferentes áreas para desenvolver trabalhos autorais, experimentar linguagens e articular novos modelos de realização cultural. Fotiá significa “fogo” em grego. O nome traduz o princípio que orienta a companhia: a centelha criada quando pessoas se encontram à disposição para transformar uma ideia em obra.

Sinopse
Buenos Aires, 1998. Lucho Cervan, escritor reconhecido e frequentemente indicado ao Prêmio Nobel, vive isolado em seu apartamento enquanto enfrenta o avanço da demência. Ao tentar recordar o nome de um tango capaz de devolver sua vontade de escrever, ele se depara com lembranças relacionadas à ditadura militar argentina e a um passado que ameaça a imagem construída ao longo de sua carreira. Entre humor, lapsos e confissões, Lucho tenta decidir o que ainda pode ser preservado e o que já não consegue esconder.

Serviço

O Nome do Tango
Temporada: 19 de setembro até 11 de outubro de 2026.
sábados e domingos, às 19h.
Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada)
https://bileto.sympla.com.br/event/125019

Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Gênero: Drama

Ficha Técnica
Texto: José Rubens Chachá
Direção: Maíra Chasseraux
Elenco: José Rubens Chachá
Iluminação: Ney Bonfante
Trilha sonora: Sérvulo Augusto
Cenário: Júlio  Dojscar
Design gráfico: Sato do Brasil
Figurino: Maitê Chasseraux
Preparadora Corporal e coreografia: Adriana Rabelo
Realização: Cia Fotiá

Teatro Estúdio
Capacidade: 30 lugares
Acessibilidade: a sala não dispõe de acesso adaptado para pessoas com mobilidade reduzida.
Rua Conselheiro Nébias, 891  – Santa Cecília, São Paulo (SP)
11.97474-1912 [email protected]

? Serviço de Valet com estacionamento quase em frente ao teatro
? Bar-café [aberto 2h antes dos espetáculos]

Horários da bilheteria:
 Segunda a domingo, a partir das 15h

CRÉDITO: Rudah Chasseraux

About Dina Barile

Recebi o título de Doutora em Viajologia, depois de viajar por 153 países e pisar em todos os continentes. Recebi um troféu do Rank Brasil, pois sou a primeira e única mulher brasileira a ter estado na ESTRATOSFERA. Experimentei a Culinária de todos os países por onde passei. Expert nos temas Turismo, Gastronomia e Beleza, convido todos os leitores para um Passeio Turístico e Gastronômico por todos os Continentes.

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