O traço simples em “O DIABO NA MESA DOS FUNDOS” de Wesley Barbosa

Por  Cláudio Marvado Oliveira

Lançamento de livro é sempre bom programa, noite dessas ao ir buscar nas  mãos do jornalista, autor e amigo Carlos Minuano o seu recém-lançado “Raul Por Trás das Canções”, que trata de histórias por trás das canções do maluco beleza Raul Seixas, tive uma  grata surpresa: conheci no evento um jovem escritor, oriundo da periferia de São Paulo, de onde também me origino e que pratica uma literatura que acompanho desde sua gênese, a Literatura Marginal; apesar de não me simpatizar com o título do movimento, sempre convivi com o mesmo e nunca o combati, até por que me faltaria autoridade para isso.

   A surpresa era Wesley Barbosa, que sai todos os dias de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, para vender seu livro O Diabo na Mesa dos Fundos, edições Selo Povo, na região da Rua Augusta…                    

   A obra de Wesley traz uma sequência instigante de contos, o primeiro, “Parada para o almoço”, narra o encontro de dois homens comuns, num bar que serve refeições baratas, destes que encontramos nas grandes cidades; os dois aparentemente pertencem à mesma classe social, possuem dramas e questões superficiais semelhantes, conversam sobre coisas da vida, das vidas simples. Apesar da aparente empatia e normalidade que beira a banalidade, revela-se uma relação de poder, com doses de competição e opressão. Há ainda uma terceira personagem, uma garçonete, que como o próprio conto, apresenta sua insignificância, repleta de significados.

   Esta característica de explorar o simples se confirmará nas escolhas do autor por personagens, tempos e espaços em vários textos, porém a literalidade vai crescendo e as influências de um escritor/leitor vão surgindo de maneira evidente, à medida que vamos virando as páginas.

   Em “A bebedeira de Carlos”, é possível lembrar de “O Espelho”, de Machado de Assis, não porque o autor busque uma releitura ou diálogo entre os contos, nada disso, mas num primeiro momento no conto de Machado, em referência ao iluminismo, homens cultos conversam iluminados pela lua, que transpassa a janela de um casarão em Santa Teresa, bairro nobre do Brasil imperial; já em Wesley, a conversa é entre homens trabalhadores (com todo o peso simbólico do termo) sob a brisa da noite, que despenca sobre um bar de periferia; porém ao contrário do jovem Alferes, personagem machadiano, o qual terá seu desfecho a partir de uma elaboração filosófica, Carlos, alcançará seu tira-teima ao dispensar a razão, pois esta, para quem vive o cotidiano do personagem, mais maltrata que ilumina.

   Há também momentos autobiográficos como em “A Voz”, no qual o autor narra aspectos de sua experiência escolar e de seu caminho em busca do conhecimento. Sempre com sua característica de construção simples, com pronomes, verbos e complementos na sequência mais inteligível possível, ele, por incrível que possa parecer, vai criando suas belezas líricas. “(…) E enquanto alguns pareciam não encontrar o caminho, lá estava ela me guiando pelas veredas distantes dos pensamentos.”

   A obra de Wesley Barbosa traz vários outros experimentos;, destaquei até aqui alguns dos que considero mais simples, pois entendo a simplicidade, como a grande virtude de sua literatura.

   Quando se toca tambor numa roda de Capoeira Angola, é necessário segurar o ímpeto e não “dobrar” as batidas, mantê-las repetidas, minimalistas, aí estará à beleza do instrumento nesta construção musical específica, a qual desafiará os tocadores a alcançá-la em sua complexa simplicidade.

   Porém, como todos estamos expostos a tentações, Wesley tem os seus momentos de explosão, em que dobra o seu toque de angola, mas o faz na hora certa, aquela em que os capoeiristas levantam e os instrumentos começam a dobrar um em cima do outro e o mestre anuncia que a roda está chegando ao fim. Contos como “A Rainha da Zona” e “Menstruada”, que, ao trazerem vozes femininas, fogem à simplicidade, “O mal-amado”, “Os retirantes” e o que nomeia o livro, O Diabo na Mesa dos Fundos, dentre outros, são momentos catárticos, em que o tocador sente as mãos esquentarem no couro do atabaque.

   Possivelmente um leitor desatento de Franz Kafka sinta falta de algo, mas a aparente ausência do vanguardismo que derrama do autor de O Processo seja exatamente a marca de uma literatura que brota das sombras de uma grande metrópole, na qual o que está além de um raio de 10 km da Praça da Sé, não tem importância alguma em termos de criação, apenas como potencial de consumo; e, por vezes ou capricho, da falta de complexidade aliada à brutalidade insurge a criatividade, porque a história mantém uma certa liberdade, uma licença poética, em relação aos que parecem não ter voz. Os hipérbatos, hipérboles, sinestesias e outros que tais, não fazem falta, os signos são diretos, sem rodeios, têm o tamanho que são, sem enfeites ou afinadores, secos como os versos imagéticos e elaborados da Terra do Sol, de Glauber Rocha.

    Não que este crítico considere desnecessários os penduricalhos, patuás e colares de conchas, muito ao contrário, é que quando usados sem lastro, podem soarem falsos. Wesley é verdadeiro, é necessário acreditar muito no próprio texto para apresentá-lo quase nu. Se um corpo negro ou trans já são políticos em suas existências, assim também é o texto de um autor de Literatura Marginal ao se apropriar da linguagem escrita, a qual se coloca existencialmente elitista, num país cujo Ministro da Educação, refere-se ao célebre escritor e um dos maiores gênios da literatura universal por Kafta.

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About Dina Barile

Recebi o título de Doutora em Viajologia, depois de viajar por 134 países e pisar em todos os continentes. Sou a primeira e única mulher brasileira a ter estado na ESTRATOSFERA. Experimentei a Culinária de todos os países por onde passei. Expert nos temas Turismo, Gastronomia e Beleza, convido todos os leitores para um Passeio Turístico e Gastronômico por todos os Continentes.

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