Vulcão Cumbre Vieja completa um mês em atividade, com todo seu esplendor, devastação e poder

Por DINA BARILE, em 19/10/2021

Os vulcões sempre me fascinaram, e nunca descobri qual era a razão para tal. Há alguns anos, comecei a formatar a ideia de presenciar uma erupção de perto, porém minhas duas tentativas anteriores a esta, foram frustrantes.

A primeira foi nas Ilhas Reunião, com o vulcão Piton de la Fournaise, em 2015, que adormeceu dias antes da minha chegada e, embora a previsão fosse de que voltaria à ativa, nada aconteceu.

Na segunda tentativa, em 2018, fui em busca da erupção do vulcão Kilauea, no Hawaii que, pasmem, após previsão de atividade por 8 meses ainda, adormeceu na noite anterior à minha chegada. Mas eu aproveitei a viagem e fiz muitos passeios bem bacanas. Se quiser saber mais, visite a página: Assim é a Natureza: fui para o Hawaii ver a erupção do Vulcão Kilauea e dei de cara com o Tornado Lane

No início deste ano de 2.021, houve uma erupção na Guatemala, fácil de ser visualizada mas ocorreu no meio da pandemia, o que me impossibilitou de ir até lá.

Esses acontecimentos geraram memes entre alguns habitantes de La Palma, que estavam torcendo pela minha chegada à ilha, na esperança de que eu interrompesse o fluxo do vulcão. Porém, só para contrariar, ele continua em atividade até hoje, como vocês podem observar no vídeo abaixo.

O vulcão Cumbre Vieja despertou no dia 19 de setembro, segue em intensa atividade há um mês, portanto, despejando rios de lava que deixam um rastro de destruição por onde passa até tocar o mar. A lava já destruiu mais de 1,6 mil construções da ilha. Cerca de 7.000 pessoas precisaram abandonar suas casas. Esta é a última erupção na ilha depois do surgimento do vulcão Teneguia, em 1971.

O bairro de Todoque foi especialmente afetado, como centro urbano soterrado pelo avanço de uma escoada de lava, a 26 de setembro, incluindo a igreja de São Pio X. A escoada de lava principal atingiu o mar na noite de 28 de setembro, numa praia da costa de Tazacorte, a oeste da montanha de Todoque.

Numa das investidas para ver o vulcão de diferentes ângulos, fomos ao pico mais alto de La Palma, Roque de los Muchachos com seus 2426m. A visão é estarrecedora.

Após uma breve caminhada, é possível ver do mirante, a fumaça do vulcão acima das nuvens, além da paisagem formada por vários picos de outros vulcões.

E quem me achar nesta foto acima, ganha um presente.

A vazão não tem nenhuma relação com o risco de que a erupção forme um tsunami na costa brasileira – o que assustou muita gente, desde que foi divulgado na imprensa – mas esse risco continua sendo muito remoto.

O vulcão Cumbre Vieja  é um vulcão estromboliano, ou seja com explosões, mas sem fluxo de lava, com típicas colunas de lava altas e cinzas. É raro que tais vulcões produzam cinzas que causem problemas, mas podem produzir dióxido de enxofre e outros gases vulcânicos importantes.

Entretanto, em alguns dias, ocorreram erupções do tipo estromboliano e do tipo hawaiiano em sete bocas do cone vulcânico, com escoadas mais rápidas e fluidas.

Como o aeroporto de La Palma foi fechado algumas vezes para que as cinzas fossem retiradas (cerca de 60% da ilha fica coberta por várias quantidades de cinzas), para garantir a minha chegada à ilha, eu fiz algumas reservas diferentes, inclusive uma com voos para Tenerife, de onde eu poderia prosseguir para La Palma em ferry.

Reservei um hotel na maior cidade da ilha, Santa Cruz de La Palma. A cidade está localizada no lado leste da ilha, abrigada da erupção que fica no lado oeste da ilha. De onde eu estava era cerca de uma hora de carro até a erupção. Uma área de 3 km de diâmetro ao redor do vulcão foi fechada, com guardas de olho diuturnamente, para que ninguém tentasse se aproximar do vulcão. Numa das investidas para ver o vulcão de diferentes ângulos, fomos ao pico mais alto de La Palma, Roque de los Muchachos com seus 2426m.

Eu estava acompanhada de um morador da ilha, bem experiente, conhecedor da área e fizemos inúmeras paradas, de onde, ainda durante o dia, era possível ver a coluna de fumaça subindo aos céus.

Um dos aspectos mais impactantes é o som do vulcão, com um rugido tão forte, que torna quase impossível conversar com as pessoas ao redor. As pessoas que habitam o lado leste da ilha dormem e acordam com esse som ensurdecedor.

Para muitos, provavelmente parecerá loucura chegar a uma área com vulcão em erupção, mas a imprensa exagera um pouco na gravidade e nas consequências de um evento desses, transmitindo uma ideia assustadora do vulcão.

Vídeos ao vivo também foram postados no Youtube.

A preocupação maior nos meios de comunicação era com a chegada da lava ao mar, quando altos valores de gases tóxicos poderiam trazer sérios problemas. Geralmente o Dióxido de Enxofre é o maior problema em uma erupção vulcânica. O gás é incolor, mas como o odor é característico e se parece com ovo podre, torna-se perceptível. O problema maior é se o gás se misturar com a umidade e descer como chuva ácida, quando ele fica capaz de causar danos aos olhos e à pele. Muitos habitantes usavam óculos especiais para proteção contra as cinzas, mas quanto ao gás, desde que não seja inalado, só vai apresentar problemas à saúde se você tiver asma ou outros problemas respiratórios. O Dióxido de Carbono, que também pode ser liberado, é incolor e inodoro e difícil de detectar sem utilizar instrumentos, mas felizmente, é facilmente levado pelo vento, para as camadas mais altas da atmosfera.

Na mídia, havia muita especulação sobre os gases perigosos que ocorrem e provavelmente assustou aqueles que o leram. Falava-se da formação de grandes quantidades de sulfeto de hidrogênio pela costa onde a lava fluía para o mar e foi pedido para os habitantes ficarem dentro de casa, mas felizmente isso foi descartado e o sulfeto de hidrogênio não foi detectado.

As colunas de lava tinham aproximadamente 500 m de altura e jogavam a lava para os lados, até uma distância de 200 metros aproximadamente. Um possível risco além da lava, é que o cone vulcânico se torna instável e pode colapsar, o que pode desencadear deslizamentos de terra e de cinzas e lava que podem atingir algumas centenas de metros além do terreno na borda da erupção. A pressão do vulcão pode explodir a massa para qualquer lado, dependendo de como a fenda se forma.

Os terremotos, decorrentes da atividade sísmica, são comuns durante erupções. Durante a minha estadia, foram registradas atividades de terremotos ao longo do dia e da noite. O terremoto mais forte mediu apenas 3,0, o  tremor durou apenas alguns segundos, mas as portas da igreja na frente da qual estávamos, foram abaladas.

Santa Cruz de La Palma

Com a assistência e atenção da agência Isla Bonita Tours, de propriedade de Jonas e Sarai, eu pude conhecer outros lados e aspectos da ilha. O curioso é que desse outro lado, não se sentia a presença do vulcão e nem mesmo se notava qualquer atividade. Tanto que no dia em que aterrissei na ilha, cheguei a pensar que o vulcão não estava mais em atividade, como já havia acontecido nas minhas duas tentativas anteriores.

Conhecida como Isla Bonita, La Palma faz jus ao nome e é uma das mais belas das Ilhas Canárias. Tem uma identidade própria, uma paisagem linda, que você não encontrará nas outras Ilhas. Como não consegui conhecer alguns parques, devido à erupção do vulcão Cumbre Vieja, já tenho a desculpa perfeita para voltar e me esbaldar no Parque Nacional Caldera de Taburiente e no Parque Natural Cumbre Vieja.

A principal atividade econômica da ilha são as plantações de banana que, infelizmente, foram totalmente destruídas no lado oeste da ilha. Realizamos um passeio pelas plantações de banana, indo para o norte da ilha e, numa de nossas paradas, o guia nos indicou uma parada para ver um Drago.
Embora pareça uma árvore, o Drago (foto à esquerda) é uma planta, endêmica das Canárias.

As cidades maiores de La Palma estão repletas de vida e são bastante sofisticadas, com uma identidade forte de uma das mais pequenas Ilhas Canárias, embora apresente qualidades reservadas às cidades mais populosas. Felizmente essa genuinidade ainda não atrai as multidões de turistas que merecia, o que torna o turismo na ilha muito agradável e acolhedor.

Você ficará encantado com a arquitetura das cidades e as vilas charmosas da ilha. Muitas casas tem balcões bem floridos e que dão um toque especial às fachadas.

Vá com bastante tempo, para conhecer cidades como Barlovento, Fuencaliente de la Palma, Garafía, Puntagorda, Los Llanos de Aridane, Villa de Mazo Breña Alta, Breña Baja, Tazacorte, Tijarafe.

O público que frequenta a ilha tem curiosidade em conhecer as formações rochosas formadas por sucessivas erupções vulcânicas, e os campos de lava no interior e no sul da ilha, mas também está disposto a trocar praias lotadas por uma paisagem verde e uma beleza natural imaculada.

No norte, você encontrará florestas de louro (foto à esquerda).

Como o mar do norte é muito violento, os moradores curtem o mar em piscinas construídas em completa integração com a natureza, para o seu lazer (foto à direita).

As noites são para observar as estrelas, uma mudança bem-vinda de ritmo dos passatempos noturnos de bares noturnos e bares de praia em outras ilhas. Com 708 quilômetros quadrados, La Palma é uma Reserva da Biosfera da UNESCO e Reserva das Estrelas e Destino.

No cume do Roque de los Muchachos, fica um dos maiores telescópios do planeta. A UNESCO nomeou La Palma como a primeira Reserva Estelar do mundo em 2012, o que significa que seus céus excepcionalmente limpos (e posição distante no Oceano Atlântico) são ideais para observar constelações e outras maravilhas astrais.

Como se não bastasse, ao subir em suas montanhas é possível ver um mar de nuvens, que é um espetáculo deslumbrante.

Uma mensagem final. Eu adorei conhecer a Isla Bonita e seus habitantes e torço para que eles se recuperem o mais rápido possível deste evento da natureza que tirou muita coisa de muita gente, mas que eu tenho certeza que a própria natureza se encarregará de lhes devolver tudo em dobro, para que possam continuar recebendo os turistas de volta, com tanta simpatia, calor e amor com que fui recebida.

 

Meu agradecimento especial a Khalil Chaves Cruz, que com seu vasto conhecimento sobre vulcões me ajudou a planejar e decidir as etapas da minha viagem. Obrigada Khalil

Próxima Reportagem será sobre Las Palmas, minha outra parada nas Ilhas Canárias.


SERVIÇO:

Hotel:
Na hora de fazer minha reserva, eu estudei a melhor relação custo x benefício e me hospedei:

  • no El Hotelito 27 em La Palma
  • no Room Paradise Center Capital em Las Palmas

Agência de Turismo:

ISLA BONITA TOURS em La Palma

Facebook : /Isla Bonita Tours

Instagram :  @ISLA BONITA TOURS LA PALMA

About Dina Barile

Recebi o título de Doutora em Viajologia, depois de viajar por 140 países e pisar em todos os continentes. Recebi um troféu do Rank Brasil, pois sou a primeira e única mulher brasileira a ter estado na ESTRATOSFERA. Experimentei a Culinária de todos os países por onde passei. Expert nos temas Turismo, Gastronomia e Beleza, convido todos os leitores para um Passeio Turístico e Gastronômico por todos os Continentes.

34 comentarios

  1. Dina….nunca li uma explanação tão real e fantástica sobre atividade vulcânica!! Seu texto, vídeos e fotos desse espetáculo da natureza estão perfeitos!! Vou enviar sua matéria para todos os meus conhecidos!! Vc continua dando aulas sobre suas viagens que arrepiam a gente…consegue passar sua experiência às pessoas como se estivéssemos ao seu lado na aventura!! Parabéns! Parabéns!!

  2. Parabéns, Dina pelo seu excelente artigo esclarecedor sobre todos os aspectos que envolvem esse estrondoso fenômeno…Continue suas explorações com êxito! Fiquei mais curiosa em relação à La Palma..quem sabe possamos passar por essa linda Ilha na próxima travessia…Todavia não tenho a sua coragem de chegar tão próxima à erupção vulcânica…Infelizmente não vou ganhar seu presente…Você se escondeu bem nessa foto! Ou usava roupas em tons rochosos!

  3. Dina, matéria espetacular e gosto de ler com este toque de humor. Passou a mensagem ainda, não desiste nunca.
    Despertou vontade de botar no radar também está experiência de curtir um vulcão ao vivo.

  4. Dina, que matéria maravilhosa, me vi em seus relatos, amo esse fenômeno natural desde criança.
    Gostaria muito de fazer parte dessa aventura, me convida na próxima…rsrsrs…

  5. Dina, que artigo delicioso de ler! Muito bem escrito, cheio de informações úteis e interessantes! Além de nos fazer sentir esse vulcão, ainda nos encheu de vontade de conhecer a região!! Obrigada pelo seu trabalho!

  6. Adorei seu texto e sou como vc, fascinada por vulcões!

  7. Dina, obrigado pelo completo relato da realidade que a ilha e sua população estão vivendo. Um fenômeno deste mostra nossa impotência. Dualidade em nossos sentimentos: ao mesmo tempo que destrói o que nós construímos também nos proporciona vislumbrar a beleza e a fúria da natureza. E se não fosse você a caçadora de erupções que é, não teríamos esta jóia para ler.

  8. Fantástica descrição! Parabéns Dina! Uma leitura gostosa, que flui e empolga.

  9. Dina, é um grande prazer poder viajar através de teus relatos. Adorei!
    Muita admiração pela tia capacidade de nos dnvolver em tuas experiências.
    Obrigada por compartilhar!
    ?

  10. Muito feliz que sua aventura dessa vez foi bem sucedida! Ver, sentir, e ouvir, um vulcão em atividade é uma experiência espetacular, uma das maiores demonstrações de força da natureza! E essa erupção em La Palma é uma oportunidade única de ver tudo isso de perto.

  11. WOW Dina,
    There are ‘man made’ Wonders of the World, and there are ‘Natural’ Wonders of the World.
    To see an erupting roaring volcano spewing red-hot lava and ash, like the one on La Palma, Spain has to be the most Spectacular of them all!
    An Epic story of your journey with photos of your great passion.
    Obrigada for sharing

  12. Parabéns Dina, pela sua determinação em presenciar um dos eventos mais belos da natureza, mas também bastante assustador!
    E nos trazer um pouco da beleza que é, sentir nosso planeta pulsante e vivo!!!!
    Em continua ação e movimento!!
    Lindas fotos e vídeos!!!

    Gratidão sempre!!

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